O cristão é um cidadão celestial, habitado pelo Espírito Santo e tendo a Palavra de Deus e o exemplo do Senhor para tomar decisões de como agir. Ele não vive de acordo com uma lista de regras de “pode” ou “não pode”. Se, por um lado, ele deve estar sujeito às autoridades, por outro deve ter discernimento para saber se as autoridades não estão exigindo que ele contrarie a vontade de Deus expressa em sua Palavra.

Portanto, o que vou dizer é para quem já foi salvo por Cristo e considera a Bíblia a Palavra de Deus, portanto se não for o seu caso certamente não irá entender. Mas mesmo se for cristão e salvo pelo Senhor, também terá dificuldade em entender se não discernir a diferença entre Israel (o povo terreno de Deus) e a Igreja (o povo celestial).

Pessoas sem esse entendimento costumam buscar no Antigo Testamento exemplos de interferência nas coisas do mundo, seja na política ou nos costumes. Para um israelita isso fazia sentido porque sua esperança estava na terra, e ele precisava lutar pela posse dela até com armas.

O cristão não tem uma pátria aqui, mas sua cidadania é celestial. Por isso, se era normal para João Batista se intrometer na vida privada de Herodes, por possuir a esposa de seu irmão, para um cristão não tem cabimento querer que o mundo viva segundo os padrões divinos.

Por isso vemos cristãos sem noção depredando templos de religiões de matriz africana, ou espancando homossexuais. Se acham donos do mundo, mas se assim é então estão sob aquele que usurpou o governo do mundo como um todo, Satanás, o príncipe.

Existem sobre nós autoridades, começando por Deus. Depois ele coloca sobre nós autoridades governamentais, mas também em esferas limitadas os pais, professores, etc. Quando congregados em assembleia, estamos também sob autoridade, mas não de homens, porque é com a autoridade delegada pelo Senhor que a assembleia julga e delibera. Mas vamos ler algumas passagens:

“Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas. De modo que aquele que se opõe à autoridade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos condenação. Porque os magistrados não são para temor, quando se faz o bem, e sim quando se faz o mal. Queres tu não temer a autoridade? Faze o bem e terás louvor dela, visto que a autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal. É necessário que lhe estejais sujeitos, não somente por causa do temor da punição, mas também por dever de consciência. Por esse motivo, também pagais tributos, porque são ministros de Deus, atendendo, constantemente, a este serviço. Pagai a todos o que lhes é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra.” (Rm 13:1-7).

Aqui alguém poderia questionar: Mas e se a autoridade for má? Se os impostos forem abusivos? Bem, eu não acredito que você tenha vivido sob um governo pior do que o de Pilatos ou Nero. E foi sob esses governantes que estiveram, primeiro o próprio Senhor e os apóstolos, e depois os cristãos de parte do primeiro século. E ainda assim o Senhor, Criador do Universo, se submeteu aos cruéis desígnios de Pilatos, reconhecendo que sua autoridade vinha, não de si, mas de Deus. Então, quando olhar para uma autoridade, reconheça que Deus está acima dela e foi ele quem a colocou ali. Pedro fala de como agir com os senhores perversos e em meio às injustiças:

“Sujeitai-vos a toda instituição humana por causa do Senhor, quer seja ao rei, como soberano, quer às autoridades, como enviadas por ele, tanto para castigo dos malfeitores como para louvor dos que praticam o bem. Porque assim é a vontade de Deus, que, pela prática do bem, façais emudecer a ignorância dos insensatos; como livres que sois, não usando, todavia, a liberdade por pretexto da malícia, mas vivendo como servos de Deus. Tratai todos com honra, amai os irmãos, temei a Deus, honrai o rei. Servos, sede submissos, com todo o temor ao vosso senhor, não somente se for bom e cordato, mas também ao perverso; porque isto é grato, que alguém suporte tristezas, sofrendo injustamente, por motivo de sua consciência para com Deus.” (1 Pe 2:13-19).

Neste ponto alguém poderia argumentar: Então se a autoridade permitir a greve e esta for feita sob o amparo da lei, posso participar? Bem, não tenha tanta pressa em chegar às conclusões, porque existe uma questão moral também envolvida em algo como uma greve, ainda que esteja dentro dos termos da lei de greves. O cristão serve ao Senhor acima de tudo e deve estar sujeito às autoridades instituídas. Mas essa “servidão” tem vários níveis, e como no descascar de uma cebola, nos submetermos pode fazer chorar mais ou menos. Somos servos do Senhor, do governo, do patrão etc.

Porém, ao escolher uma profissão, o cristão cria um vínculo moral com o cliente, se for autônomo, ou com o empregador, de quem ele se constitui servo e a quem se compromete em atender da melhor forma possível. Já ouviu a frase “Servimos bem para servir sempre”? Pois é. O cliente ou o patrão é quem Deus usa para prover meu sustento e eu não deveria de modo algum desapontá-lo ou deixar de atendê-lo por algum motivo, se ele me paga conforme combinamos.

Então alguém me convida para participar de uma greve contra o governo, ou impostos abusivos, ou o que seja, greve essa que poderá infernizar a vida de meu cliente ou patrão, que é quem Deus sempre usou para colocar o feijão em minha mesa. Devo apontar meu fogo contra o motivo da greve correndo o risco de acertar meu cliente ou meu patrão?

Eu particularmente considero uma traição a meu cliente ou meu patrão, que no fundo são uma e mesma pessoa, aquela a quem sirvo, penalizá-lo por um descontentamento que tenho, não com ele, mas com o governo. Uma coisa é eu não colocar meu caminhão na rua para não ser destruído por manifestantes irados, outra é me juntar aos manifestantes para agir contra o bem estar de meu cliente. Acredito que o cristão deveria ter consciência disso.

Deixe-me dar alguns outros exemplos de como a obediência às autoridades pode esbarrar na obediência à Palavra de Deus. Pergunto: O cristão deve votar e eleger seus governantes? Sem dúvida esse é uma das premissas de um sistema democrático, no qual é a vontade do povo que se impõe e governa através de seus representantes eleitos.

Mas digamos que você votou no candidato “A” e quem ganhou a eleição foi o candidato “B”. Sabendo que todo poder é, em última instância, constituído por Deus, então você votou contra a vontade de Deus. Mas e se o candidato “B” for um Hitler? Não importa. Deus dá o governante que o povo de um país quer e merece. Na Alemanha do passado Hitler era o malvado predileto do povo.

Mais um exemplo: Associações de classe são legais em nosso país, então devo deduzir que não há nada de errado em um cristão se filiar a eles. Ainda que seja legal e não representar uma desobediência à autoridade, em um determinado momento pode não ser assim. Se a entidade decidir que seus afiliados devem promover uma greve ou ação contra seus patrões, o cristão irá esbarrar na Palavra de Deus que nos manda obedecer a nossos senhores.

Quer mais? Um cristão poderia ser candidato a algum cargo no governo? Sim, nada de ilegal nisso. Mas será que ele conseguiria ser alguém lá sem fazer acordos, associações, articulações e filiar-se a um partido? Como ficaria a Palavra de Deus que diz para não termos qualquer associação com os infiéis, por isso ser considerado “jugo desigual”? “Não vos prendais a um jugo desigual com os infiéis; porque, que sociedade tem a justiça com a injustiça? E que comunhão tem a luz com as trevas?” (2 Co 6:14). E quando o partido determinasse que seus membros deveriam votar de uma maneira contrária à Palavra de Deus, por exemplo, pela legalização do aborto?

Percebe que a questão toda não é tão simples quanto acreditar que por não praticar nenhuma ilegalidade estará assim fazendo a vontade do Senhor? Nossas leis permitem o divórcio, e a Palavra de Deus também. Mas esta é clara em colocar limites e condições para o cristão, como apenas reconhecer o divórcio por motivo de adultério como rompimento do vínculo matrimonial. Caso contrário, o crente pode até se separar e mesmo legalizar sua separação conforme as leis do país, mas não poderá se casar novamente a não ser com a mesma pessoa.

Voltando à questão da greve envolvendo trabalho, já passei por muitas profissões e aprendi com um de meus chefes: “A porta da rua é serventia da casa”. Assim, quando eu via que uma profissão não atendia minhas necessidades e objetivos eu partia para outra. Mas enquanto nela eu tinha responsabilidades, não só com a legislação, mas principalmente com o Senhor e com meu cliente ou patrão.

Será que você conseguiria repetir os versículos que vou ler a seguir, enquanto participa de uma manifestação que possa estar trazendo danos e prejuízos a seu cliente ou patrão, que sempre correspondeu ao seu trabalho? Na moderna relação de trabalho em que não participamos de um sistema escravagista, meu cliente é meu senhor e eu sou seu servo.

Aprendi também com minha mãe a ser grato com aquele por meio de quem a comida chega ao meu prato. Meu pai foi funcionário do Banco do Brasil e se tinha uma coisa que a deixava chateada era ver colegas de meu pai se revoltando contra o Banco ou fomentando boicotes. Ela até quis que seus filhos abrissem conta no mesmo banco!

Mas vamos aos versículos, que sugiro que você repita quando estiver carregando um cartaz de protesto em uma manifestação cujo subproduto será prejudicar seus clientes ou seu patrão. Na minha opinião tentar dizer estas palavras ao mesmo tempo será como tentar chupar cana e escovar os dentes.

“Não torneis a ninguém mal por mal; esforçai-vos por fazer o bem perante todos os homens… Evitai que alguém retribua a outrem mal por mal; pelo contrário, segui sempre o bem entre vós e para com todos… não pagando mal por mal ou injúria por injúria; antes, pelo contrário, bendizendo, pois para isto mesmo fostes chamados, a fim de receberdes bênção por herança.” (Rm 12:17; 1 Ts 5:15; 1 Pe 3:9)

“Servos, obedecei em tudo ao vosso senhor segundo a carne, não servindo apenas sob vigilância, visando tão-somente agradar homens, mas em singeleza de coração, temendo ao Senhor. Tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como para o Senhor e não para homens, cientes de que recebereis do Senhor a recompensa da herança. A Cristo, o Senhor, é que estais servindo; pois aquele que faz injustiça receberá em troco a injustiça feita; e nisto não há acepção de pessoas.” (Cl 3:22-25).

Seria injusto para com meu cliente eu participar de algo, mesmo que dentro da lei, que viesse a prejudicar aquele que é meu senhor na relação cliente-fornecedor. Numa greve posso acabar matando meu cliente com o chamado “fogo amigo”, como acontece numa greve de transportes que impede pequenos produtores de escoarem seus produtos. Tudo bem que não mirei nele, mas acabei acertando nele de qualquer maneira.

A passagem em Romanos que fala da obediência às autoridades enfatiza não só o temor de ser repreendido por ela, mas também por consciência. “É necessário que lhe estejais sujeitos [às autoridades], não somente por causa do temor da punição, mas também por dever de consciência.” (Rm 13:5). E a consciência tem um alcance maior do que numa relação entre apenas duas partes, eu e a autoridade. A consciência pode também abarcar a questão: “Poderei prejudicar outros com essa minha ação, ainda que ela esteja dentro da lei?”.

Talvez você tenha mais uma dúzia de exemplos ou profissões, mas deixo para você pensar por ora apenas na sua, porque é de você que terá de dar conta diante de Deus, e não do modo de agir do outro. A você cabe fazer tudo para não prejudicar seu próximo.

Enquanto escrevo, uma greve de caminhoneiros assola o país, trazendo muitas consequências de desabastecimento, perda de produção e até mortes por falta de medicamentos e socorro imediato. Na próxima semana muitos pequenos produtores terão sido jogados para fora do mercado e talvez percam suas terras. Enquanto isso, talvez você seja um dos caminhoneiros em greve com mil razões para participar, até por não estar fazendo nada ilegal. Sinto pelo sofrimento que passa parado numa estrada passando fome, frio e desprovido do conforto que teria em sua casa. Mas não são nossas circunstâncias que devem ditar nosso modo de agir, e sim a Palavra de Deus.

Mas em um determinado momento o governo decretou que a greve é ilegal, e você como um bom cristão decide pegar seu caminhão e voltar para casa. Mas como tirá-lo agora que está entalado nem meio a centenas de outros? Um antigo patrão costumava me dizer que contratos não são feitos para entrarmos neles, mas para termos condições de sairmos.

Como cristãos devemos sempre tomar cuidado com as associações que fazemos e com quem nos associamos, porque pode ser que o contrato que parecia muito vantajoso para se entrar não tinha uma cláusula de como escapar dele.

Entenda que dificuldades e tribulações sempre acompanharam o cristão e não eram coisas estranhas aos do primeiro século. Espero que esta passagem da carta de Paulo possa servir de consolo, pois fala tanto dos sofrimentos quanto da paga que Deus dará no seu devido tempo aos que praticam todas as injustiças que hoje afligem nossos irmãos em todo o mundo.

“Irmãos, cumpre-nos dar sempre graças a Deus no tocante a vós outros, como é justo, pois a vossa fé cresce sobremaneira, e o vosso mútuo amor de uns para com os outros vai aumentando, a tal ponto que nós mesmos nos gloriamos de vós nas igrejas de Deus, à vista da vossa constância e fé, em todas as vossas perseguições e nas tribulações que suportais, sinal evidente do reto juízo de Deus, para que sejais considerados dignos do reino de Deus, pelo qual, com efeito, estais sofrendo;  se, de fato, é justo para com Deus que ele dê em paga tribulação aos que vos atribulam e a vós outros, que sois atribulados, alívio juntamente conosco, quando do céu se manifestar o Senhor Jesus com os anjos do seu poder, em chama de fogo, tomando vingança contra os que não conhecem a Deus e contra os que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus. Estes sofrerão penalidade de eterna destruição, banidos da face do Senhor e da glória do seu poder, quando vier para ser glorificado nos seus santos e ser admirado em todos os que creram, naquele dia ( porquanto foi crido entre vós o nosso testemunho ). Por isso, também não cessamos de orar por vós, para que o nosso Deus vos torne dignos da sua vocação e cumpra com poder todo propósito de bondade e obra de fé, a fim de que o nome de nosso Senhor Jesus seja glorificado em vós, e vós, nele, segundo a graça do nosso Deus e do Senhor Jesus Cristo.” (1 Ts 1:3-12).

Então antes de entrar numa greve, ainda que seja legal, pense se ela não irá prejudicar seu cliente ou empregador, e pense também se depois de causado esse prejuízo você teria cara para ir pregar o evangelho para esse cliente ou empregador. Será que ele estaria interessado em escutar o que você teria a dizer?

Por Mario Persona

Fonte: https://bit.ly/2sjnd5t

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Comentários:


  1. silvio gomes disse:

    Perfeito!!!


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