Os discípulos se surpreendem ao descobrirem que existe um traidor entre eles. Como já disse aqui, Lucas não segue uma ordem cronológica, mas moral. Por isso os versículos 21 ao 23 teriam se passado no momento em que comiam a ceia da Páscoa, e não a Ceia do Senhor. O Evangelho de Mateus mostra essa ordem e também a pergunta de Judas diante da revelação de Jesus: “Acaso, sou eu, Mestre? Respondeu-lhe Jesus: Tu o disseste” (Mt 26:25). Pedro, então, toma a iniciativa de pedir a João que pergunte quem seria o traidor:

“‘Senhor, quem é?’ Respondeu Jesus: ‘Aquele a quem eu der este pedaço de pão molhado no prato’. Então, molhando o pedaço de pão, deu-o a Judas Iscariotes, filho de Simão. Tão logo Judas comeu o pão, Satanás entrou nele. ‘O que você está para fazer, faça depressa’, disse-lhe Jesus… Assim que comeu o pão, Judas saiu. E era noite” (Jo 13:23-30). Judas sai antes de Jesus instituir a Ceia do Senhor, e é provável que o pão tenha sido “molhado no prato” com o molho da carne da ceia pascal, e não com vinho. A saída de Judas é acompanhada da expressão “e era noite”. É impossível pensar em um momento mais sinistro do que este da traição.

Jesus cita um Salmo escrito mil anos antes: “Até o meu amigo íntimo, em quem eu confiava, que comia do meu pão, levantou contra mim o calcanhar” (Sl 41:9). Possuído pelo diabo Judas levantaria seu “calcanhar” contra Jesus, e este teria o seu próprio “calcanhar” ferido pela serpente, na expressão usada por Deus no Éden ao anunciar a morte de Cristo: “Porei inimizade entre você e a mulher, entre a sua descendência e o descendente dela; este lhe ferirá a cabeça, e você lhe ferirá o calcanhar” (Gn 3:15). A traição e morte de Cristo não eram nenhuma surpresa, pois estavam perfeitamente alinhados com os desígnios de Deus.

Mas não é apenas Judas que tem seu coração exposto. Referindo-se aos discípulos, depois de revelar que “Satanás pediu vocês para peneirá-los como trigo” (Lc 22:31), Jesus avisa que Pedro está prestes a negá-lo. Pedro, porém, retruca: “Estou pronto para ir contigo para a prisão e para a morte” (Lc 22:33). O pecado premeditado de Judas, fruto de seu amor ao dinheiro, seria imperdoável e o levaria à destruição. Porém haveria perdão para a autoconfiança de Pedro, por quem Jesus intercederia para que depois ele confirmasse seus irmãos.

Enquanto a expectativa da morte em cruz aterroriza o coração de Jesus, os discípulos estão preocupados com outra coisa, como veremos no próximo post.

Por Mario Persona

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Germano Luiz Ourique


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