No início dos anos 80 eu aguardava na fila do caixa de uma livraria cristã em São Paulo, quando um jovem à minha frente puxou conversa. Com um LP de música cristã nas mãos, ele me contou que era judeu e tinha entrado ali só para comprar o disco para a brincadeira de ‘amigo secreto’. Uma colega cristã havia escolhido aquele presente. A consciência do rapaz devia incomodá-lo para ele se dar ao trabalho de se justificar a um desconhecido. Seu olfato judeu desaprovava sua presença entre pessoas que exalavam “o aroma de Cristo” (2 Co 2:15).

Decidi então acrescentar mais umas gotas desse perfume falando do evangelho com versículos tirados do Novo Testamento da Bíblia que eu tinha ido ali comprar. Sua rejeição foi imediata. Em tom de zombaria declarou: “Nós judeus, quando pegamos uma Bíblia, descartamos o Novo Testamento porque é tudo mentira”. Senti-me totalmente impotente. Como falar do evangelho sem usar o Novo Testamento?

Então um homem atrás de mim pediu licença, pegou a Bíblia de minhas mãos e, abrindo no capítulo 9 do livro do profeta Daniel no Antigo Testamento, começou a ler a partir do versículo 24. Vi que o rapaz demonstrou aprovação com um aceno da cabeça. A passagem identificava com “semanas” de anos os principais eventos passados e futuros da história de Israel: “Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo, e sobre a tua santa cidade… Desde a saída da ordem para restaurar, e para edificar Jerusalém, até ao Messias, o Príncipe, haverá sete semanas, e sessenta e duas semanas [totalizando 69 semanas ou 483 anos]; as ruas e o muro se reedificarão, mas em tempos angustiosos”.

O homem fez uma pausa e perguntou quando teria sido essa restauração, e o rapaz indicou que fora na época de Esdras e Neemias. O homem continuou: “E depois… será cortado o Messias… e o povo do príncipe, que há de vir, destruirá a cidade e o santuário.”. Então ele perguntou quando ocorreu a destruição da cidade e do Templo, e o rapaz apontou o ano 70 da era cristã. Então aquele irmão em Cristo falou: “Aqui diz que o Messias viria e seria tirado em algum momento entre a reconstrução do Templo e sua destruição. O Templo já foi destruído. Cadê o Messias?”.

O jovem ficou pálido. Jogou o LP sobre o balcão e começou a gritar: “Não! Não! Não pode ser Jesus! Se fosse nossos mestres teriam nos ensinado assim!”. E saiu correndo da livraria sem levar o presente para a colega.

Por Mario Persona

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Germano Luiz Ourique


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