Porém, aqui apresenta-se um ponto moral de absoluta importância, isto é, o estado da nossa alma. Isto, podemos ficar certos, tem muito que ver com a questão de direção. E aos mansos que Ele guiará retamente e ensinará o seu caminho. Não devemos nunca esquecer isto. Se formos fiéis e não confiarmos em nós mesmos; se esperarmos em Deus, em simplicidade de coração, retidão de pensamento e propósitos honestos, Ele nos guiará, sem dúvida alguma. Mas de nada servirá pedir o conselho de Deus sobre um assunto em que já estamos decididos ou a nossa vontade está em ação.

Isto é uma fatal ilusão. Vejamos o caso de Josafá em 1 Reis 22. “Porém, no terceiro ano, sucedeu que Josafá, rei de Judá, desceu para o rei de Israel” — um triste erro, para começar — “e o rei de Israel disse aos seus servos: Não sabeis vós que Ramote-Gileade é nossa, e nós estamos quietos, sem a tomar da mão do rei da Síria? Então disse a Josafá: Irás tu comigo à peleja a Ramote-Gileade? E disse Josafá ao rei de Israel: Serei como tu és, e o meu povo, como o teu povo, e os meus cavalos, como os teus cavalos” e, como vemos em 2 Crônicas 18:3, “seremos contigo nesta guerra.”

Aqui vemos que Josafá tinha já decidido o seu propósito antes de ter pensado pedir o conselho de Deus sobre o assunto. Estava numa falsa posição e numa atmosfera absolutamente má. Tinha caído nas ciladas do inimigo por falta de sinceridade, e por isso não estava num estado próprio para receber ou aproveitar da direção divina. Estava inclinado à sua própria vontade e o Senhor deixou que ele recolhesse o fruto dela; e não fora a infinita e soberana misericórdia de Deus, e ele teria caído à espada dos sírios e sido levado cadáver do campo de batalha. E verdade que ele disse ao rei de Israel: “Consulta, porém, hoje a palavra do SENHOR.” Mas de que serviria isto, quando ele já se havia comprometido a atuar de um modo determinado? Que loucura revela todo aquele que forma um propósito definido e então vai pedir o conselho do Senhor! Tivesse Josafá estado reto e alma, e nunca teria procurado conselho num tal caso. Mas o estado da sua alma era mau, a sua posição falsa e o seu propósito estava em direta oposição com o pensamento e a vontade de Deus. Por isso, embora ouvisse dos lábios do mensageiro do Senhor o Seu solene juízo contra aquela expedição, seguiu o seu próprio caminho e como consequência por pouco ia perdendo a vida.

Vemos a mesma coisa no capítulo 42 de Jeremias. O povo dirigiu-se ao profeta pedindo conselho quanto à sua intenção de descerem ao Egito. Mas já haviam resolvido o assunto. Estavam decididos a fazer a sua própria vontade. Miserável estado! Tivessem eles sido mansos e humildes e não teriam necessidade de pedir conselho sobre o assunto. Mas eles disseram ao profeta Jeremias: “Caia agora a nossa súplica diante de ti, e roga por nós ao SENHOR, teu Deus” — porque não dizer, o Senhor nosso Deus?- — “por todo este resto; porque de muitos restamos uns poucos, como veem os teus olhos; para que o SENHOR, teu Deus, nos ensine o caminho por onde havemos de andar e aquilo que havemos de fazer. E disse-lhes Jeremias, o profeta: Eu vos ouvi; eis que orarei ao SENHOR, VOSSO Deus, conforme as vossas palavras; e seja o que for que o SENHOR VOS responder, eu vo-lo declararei; não vos ocultarei nada. Então, eles disseram a Jeremias: Seja o SENHOR entre nós testemunha da verdade e fidelidade, se não fizermos conforme toda a palavra com que te enviar a nós o SENHOR, teu Deus. Seja ela boa, ou seja má” — como poderia a vontade de Deus ser alguma coisa que não fosse boa? — “à voz do SENHOR nosso Deus, a quem te enviamos, obedeceremos, para que nos suceda bem, obedecendo à voz do SENHOR, nosso Deus.”

Ora tudo isto parecia muito piedoso e prometedor. Mas note- se a sequência. Quando descobriram que o juízo e conselho de Deus não estavam de acordo com a sua própria vontade, “Então, falou Azarias… e todos os homens soberbos, dizendo a Jeremias: Tu dizes mentiras; o SENHOR, nosso Deus, não te enviou a dizer: Não entreis no Egito, para lá peregrinardes.”Aqui o estado verdadeiro do caso vem claramente à luz. O orgulho e a obstinação estavam em atividades. Os seus votos e promessas eram falsos. “…Enganastes a vossa alma”, diz Jeremias, “pois me enviastes ao SENHOR, VOSSO Deus, dizendo: Ora por nós ao SENHOR, nosso Deus; e, conforme a tudo que disser o SENHOR, Deus nosso, declara-no-lo assim, e o faremos.” Tudo teria sido muito bem, se a resposta divina tivesse correspondido à sua vontade sobre o assunto; mas, visto que ia contra ela, rejeitaram-na por completo.

Quantas vezes é este o caso! A Palavra de Deus não agrada aos pensamentos do homem; julga-os; está em oposição direta à sua vontade; choca-se com os seus planos e por isso ele rejeita-a. A vontade humana e a razão humana estão sempre em direto antagonismo com a Palavra de Deus; e o cristão deve rejeitar tanto uma como a outra, se deseja realmente ser divinamente guiado.

Uma vontade insubmissa e uma razão cega, se lhes prestamos atenção, só nos podem conduzir às trevas, miséria e desolação. Jonas queria ir para Társis, quando deveria ter ido para Nínive; e a consequência foi que se encontrou “no ventre do inferno”, e “as algas se enrolaram na sua cabeça”. Josafá quis ir a Ramote-Gileade quando deveria ter estado em Jerusalém; e o resultado foi encontrar-se rodeado pelas espadas dos sírios. O remanescente, nos dias de Jeremias, queria ir para o Egito, quando deveria ter permanecido em Jerusalém, e o resultado foi eles morrerem à espada, pela fome e pela peste na terra do Egito, onde desejavam “entrar para lá peregrinar”. Assim terá de ser sempre. A vereda da obstinação há de ser forçosamente uma senda de trevas e miséria. Não pode ser de outra maneira. Pelo contrário, a vereda de obediência é uma senda de paz, de luz e de bênção, um caminho em que os raios do favor divino são sempre projetados em vivo resplendor. Pode parecer à vista humana estreito, áspero e solitário; mas a alma obediente acha que é o caminho da vida, paz e segurança moral.

A vereda dos justos é como a luz da aurora que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito.” Bendita vereda! Que o autor e o leitor destas páginas sejam sempre achados trilhando-a, com pé firme e propósito sincero! Antes de deixar este grande tema prático de direção divina e obediência humana, devemos rogar ao leitor para referir, por uns momentos, uma belíssima passagem do capítulo 11 de Lucas.

“A candeia do corpo é o olho, sendo pois, o teu olho simples, também todo o teu corpo será luminoso; mas, se for mau, também o teu corpo será tenebroso. Vê, pois, que a luz que em ti há não sejam trevas. Se, pois, todo o teu corpo é luminoso, não tendo em trevas parte alguma, todo será luminoso, como quando a candeia te alumia com o seu resplendor” (versículos 34 a 36).Nada pode exceder a força moral e a beleza desta passagem. Antes de tudo, temos o “olho simples”. Isto é essencial para gozar a direção divina. Indica uma vontade quebrantada — um coração honestamente decidido a fazer a vontade de Deus. Não interesses ocultos, motivos diversos, nem afins pessoais em vista. Existe o único e simples desejo e sincero propósito de fazer a vontade e Deus, seja qual for essa vontade.

Quando a alma está nesta atitude, a luz divina desce em caudal e enche completamente o corpo. Por isso segue-se que se o corpo não está cheio da luz, o olho não é simples; existem vários motivos; a obstinação ou o interesse próprio está agindo; não somos retos perante Deus. Neste caso, qualquer luz que professamos é trevas; e não há trevas mais densas ou terríveis como as trevas judiciais que se apoderam do coração que é governado pela obstinação enquanto professa ter luz de Deus. Isto será visto em breve na cristandade, quando “Então, será revelado o iníquo, a quem o Senhor desfará pelo assopro da sua boca e aniquilará pelo esplendor da sua vinda; a esse cuja vinda é segundo a eficácia de Satanás, com todo o poder, e sinais, e prodígios de mentira, e com todo engano da injustiça para os que perecem, porque não receberam o amor da verdade para se salvarem. E, por isso, Deus lhes enviará a operação do erro, para que creiam a mentira, para que sejam julgados todos os que não creram a verdade; antes, tiveram prazer na iniquidade” (2 Ts 2:8-12).

Como isto é terrível! Quão solenemente fala a toda a igreja professante! E quão solenemente se dirige à consciência tanto do autor como do leitor destas linhas! A luz que não produz efeito converte-se em trevas. “Se a luz que em ti há são trevas, quão grandes serão tais trevas!” Mas por outro lado uma pequena luz seguida honestamente é certo crescer; “porque ao que tem ser-lhe-á dado”; e “…a vereda dos justos é como a luz da aurora que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito.”

Este progresso moral é descrito com toda a sua beleza e força em Lucas 11:36: “Se, pois, todo o teu corpo é luminoso, não tendo em trevas parte alguma” — nenhum aposento fechado aos raios celestiais, nenhuma reserva desonrosa, todo o ser moral amplamente aberto, em verdadeira simplicidade à ação da luz divina, então, “todo será luminoso, como quando a candeia te alumia com o seu resplendor.” Em suma, a alma obediente não somente tem luz para a sua própria vereda, mas a luz resplandece, de forma que os outros a veem, como o esplendor de uma candeia.

“Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus.”

Temos um vivo contraste com tudo isto em capítulo 13 de Jeremias. “Dai glória ao SENHOR, VOSSO Deus, antes que venha a escuridão e antes que tropecem vossos pés nos montes tenebrosos; antes que, esperando vós luz, ele a mude em sombra de morte e a reduza à escuridão.” A maneira de dar glória ao Senhor, nosso Deus, é obedecer à Sua Palavra. A vereda do dever é uma vereda brilhante e bendita; e aquele que, pela graça, trilha essa vereda não tropeçará nunca nas escuras montanhas. Aquele que é verdadeiramente humilde, submisso e que não confia em si próprio, manter-se-á a distância dessas montanhas de obscuridade e andará nessa bendita vereda que está sempre iluminada pelos resplandecentes e alegres raios do semblante de Deus, em sinal de aprovação.

Esta é a vereda do justo, a vereda da sabedoria celestial, a vereda de paz perfeita. Possamos nós, prezado leitor, trilhar sempre esta vereda; e não esqueçamos nunca, nem por um momento, que é o nosso elevado privilégio ser divinamente guiados nos mais minuciosos pormenores da vida diária. Ai daquele que não é assim guiado! Era muitos tropeços, muitas quedas, muitas tristes experiências. Se não somos guiados pela vista do nosso Pai, seremos como o cavalo ou a mula que não têm entendimento, cuja boca precisa de cabresto e freio — como o cavalo que se arroja impetuosamente onde não deveria ou a mula que recusa obstinadamente ir aonde deve ir. Como é triste que um cristão seja como eles! Quão bem- aventurada coisa é andar, dia a dia, na vereda marcada para nós pelo olhar de nosso Pai, uma vereda que os olhos do abutre não têm visto nem o leão tem trilhado, a vereda de santa obediência, na qual os mansos e humildes se encontrarão sempre para seu profundo gozo e louvor e glória d’Aquele que a abriu para eles e lhes dá graça para a trilharem.

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