A passagem de Efésios traz uma lista de preceitos do tipo não furte, não minta, livre-se da amargura, da indignação, da ira, da gritaria, da calúnia, da maldade, etc. Mas é importante perceber que antes dessa lista vem o segredo para se viver de acordo com a natureza de Deus, não seguindo uma lista de preceitos, mas trocando de roupa: “Quanto à antiga maneira de viver, vocês foram ensinados a despir-se do velho homem, que se corrompe por desejos enganosos, a serem renovados no modo de pensar e a revestir-se do novo homem, criado para ser semelhante a Deus em justiça e em santidade provenientes da verdade” (Ef 4:22-24).

Regras morais ou códigos de conduta você encontra em todas as religiões, mas existe uma diferença no cristianismo. Neste, não é a mudança de comportamento que faz de você um novo homem, mas é o “ser um novo homem” que o leva a mudar de comportamento. O cristão deve viver e agir de acordo com a nova identidade que recebeu por graça, e não tentar usar uma identidade forjada por suas próprias mãos. É a diferença entre receber um “RG” emitido pelo governo, em papel timbrado e impresso na Casa da Moeda, e criar seu próprio “RG” numa impressora jato de tinta.

As religiões humanas dizem “Não faça o mal”, porém Deus diz “Você não é dos que praticam o mal”. As religiões dizem para você fazer o bem para se tornar uma pessoa melhor; Deus diz que você faz o bem por já ser uma pessoa melhor. Continue lendo »


A dificuldade para perdoar está associada à nossa dificuldade em lidar com as emoções. A carta aos Efésios diz: “Fiquem irados, mas não pequem” (Ef 4:26). A passagem não diz para não ficarmos irados, mas para não pecarmos. O problema não está na ira, pois o próprio Deus fica irado, mas em como administrá-la. A continuação diz que não devemos permanecer irados até o final do dia e nem darmos lugar ao diabo. Este certamente se aproveitará de nossos sentimentos para nos tentar.

Sentimentos que costumamos chamar de negativos, como ira, indignação ou tristeza, não são apenas humanos, mas divinos em sua origem. Se você fizer uma busca em uma Bíblia eletrônica por estes sentimentos e suas variantes descobrirá que muitas vezes eles aparecem relacionados a Deus. Você fica irado com a injustiça? Deus também. Indignado com a infidelidade? Por que Deus não ficaria? Fica triste quando traído? Deus muito mais. Por que achar que Deus seria menos sensível que você?

Um Deus neutro, indiferente e impassível para com o mal seria também alheio para com o bem e incapaz de amar, se compadecer ou se alegrar. Mas sabemos que Deus ama, se compadece e também se entristece, ao mesmo tempo em que odeia “o ímpio e a quem ama a injustiça” (Sl 11:5) — algo que todos nós somos por natureza. Continue lendo »


A ideia de perdão nos faz pensar em dívida. Quando alguém empresta de você e não paga, lhe ofende ou quebra um copo em sua casa, sua reação natural é: “Vai pagar!”. Quando você percebe que nunca irá receber, passa a desejar que o outro pague de outro modo, ficando na miséria, sendo difamado ou tendo seus copos quebrados. Mas perdoar não é apenas abrir mão de receber, e sim pagar pelo devedor, trabalhando duro para repor o dinheiro, reconstruindo a própria reputação ou comprando um novo copo.

O perdão pode ter um custo material ou emocional, mas é o único meio de se livrar da dívida que passou a ser sua. Perdão que guarda rancor não é perdão. É como depositar o pagamento em juízo, ou seja, você paga, mas o outro não recebe. Fazer o outro pagar denegrindo a imagem dele na sociedade ou o demonizando em pensamento, também não é perdoar. O verdadeiro perdão leva você a orar e interceder por seu adversário.

Perdão gerado por um sentimento de superioridade não é perdão. Falo daquele que trata o ofensor com desdém e se considera superior dizendo a si mesmo: “Pobre alma pouco evoluída! Eu jamais faria algo assim”. Se você pensa desta maneira é porque não sabe que também é um devedor necessitado do perdão de Deus. Continue lendo »